terça-feira, 20 de junho de 2017

A pouca conhecida viagem do explorador inglês Savage Landor pelo rio Tapajós e sua estadia em Itaituba – 1911


O nosso serviço telegráfico noticiou a chegada, à Belém, deste notável explorador inglês.
Nos jornais do Pará encontramos as notas abaixo sobre a travessia que realizou:
Savage Landor [foto] penetrou nas matas goianas, convicto de que estava tudo bem disposto e teria bom êxito a sua tentativa. Os animais eram, ao todo, dezesseis.
A expedição atravessou o planalto de Mato Grosso e dirigiu-se às cabeceiras do Arinos, origem do Tapajós.

Ali, depois de adquirir dos indígenas, duas ubás, desceu o Arinos e comunicou-se com o Tapajós, passando as suas cachoeiras e saltos até a confluência do Paranatinga, ou São Manoel, depois de ter percorrido, na sua foz, o Juruena.
Tendo escasseado as provisões de boca, o viageiro partiu daquele ponto com dois homens, pela floresta, para o Canumá, que demora a alguns quilômetros do rio Madeira, no empenho de obter viveres. Essa travessia de Paranatinga ao Canumá que, segundo as previsões, devia durar quatro dias, foi vencida em 27 dias que custaram aos itinerantes indescritíveis tormentos.
Não tendo encontrado barracão onde pudessem comprar alimentos, conseguiram obter dos tripulantes de uma canoa 1 paneiro de farinha e 1 lata de manteiga, depois do que regressaram ao ponto em que tinham deixado os companheiros, no Tapajós, seminus e descalços, porque durante uma noite as formigas inutilizaram os sapatos dos excursionistas. Como o nosso companheiro se admirasse da voracidade das formigas, o abnegado engenheiro pôs-se a rir, explicando que não era de admirar dada a grande quantidade de saúvas existente na mata. Acrescentou que, com a falta de sapatos, os suplícios por que passaram foram cruéis.
Durante os últimos dezesseis dias faltaram completamente os recursos, nada mais houve que comer, e o engenheiro e os seus camaradas experimentaram, então, os horrores da fome; mal podiam andar, tendo adoecido os que antes haviam comido farinha e manteiga. Era doloroso ver-se assim, sem forças, homens que haviam feito a maior parte do trajeto, desde o início da exploração, cheios de robustez e bem dispostos.
Não obstante esse amargo revés, Savage Landor, com o pessoal, prosseguiu a sua missão, descendo em ubás o rio Tapajós. Sorriu-lhe então a felicidade; um novo horizonte se lhe deparou. Em todos os pontos o excursionista era recebido com gentileza e simpatia, por parte dos proprietários dos barracões e seringueiros. E assim continuou a viajar, até encontrar-se com o senhor João Pinto, empregado do coronel Raimundo Pereira Brasil, que o acolheu generosa e afavelmente, acompanhando-o até o lugar denominado Pimental. Aí o recebeu o coronel Brasil que, com o seu pessoal, vinha em canoa e concedeu transporte ao engenheiro britânico, então doente, e para o qual teve cuidados fraternais, levando-o para a sua residência, em Itaituba.
Uma vez melhorado, Landor resolveu tomar, em Itaituba, o vapor nacional “Comandante Macedo”, que lhe causou ótima surpresa, pois não imaginava ver aquela artéria do rio-mar sulcada por uma embarcação como a de que era passageiro.
O engenheiro Landor percorreu cerca de oito mil quilômetros em quase oito meses. Todo o vastíssimo território atravessado é fertilíssimo, especialmente o alto Arinos e as terras banhadas pelo Tapajós, onde o solo avulta, ora acidentado, ora em extensas planícies ou formosas campinas, cercadas de árvores gigantescas.
A zona tapajuaba [sic], refere o excursionista entusiasmado, é admirável, riquíssima e abundante em cauchais virgens, que produzirão, a seu tempo, a riqueza dos seus proprietários.
Outros produtos, que julga inestimáveis, além da flora exuberante, onde se encontram variadas espécies de madeira de lei, entesouram aquelas remotas paragens, omitindo, na sua narrativa, fatos e aspectos diversos, que serão tratados em minuciosa monografia que vai elaborar e para a qual anotou os necessários pontos, que constituem o subsídio.
De toda a região desconhecida, o dr. Savage Landor procedeu ao levantamento, para a organização de mapas, tirando a latitude e longitude de todas as depressões encontradas. Nesse trabalho, muitas vezes completamente abstrato, afastava-se dos seus companheiros, na distância de alguns quilômetros. Durante o percurso apanhou mais de 400 chapas fotográficas.


NOTA: Publicado no jornal Pacotilha de 17 de novembro de 1911.

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