segunda-feira, 6 de novembro de 2017

O obidense que se tornou chefe dos indígenas Mundurucus

JOÃO MENDES era descendente da família «Marinho» da cidade de Óbidos, tão notável pelas qualidades que a enobrecem e pelos cargos importantes que alguns de seus membros tem ocupado.
Na idade de 6 anos acompanhou João Mendes a seus pais em uma excursão que fizeram estes ao rio Madeira e de onde não deviam voltar. Achando-se reunidos em uma praia, foram repentinamente assaltados pelos índios Araras e por estes aprisionados.
João Mendes assistiu a morte dos pais e a pobre criança, além de ser obrigada a contemplar o espetáculo horrível da mutilação de seus cadáveres, foi também obrigada a devorar alguns bocados daquelas carnes, que fumegavam e que eram saboreadas pelos canibais naqueles horríveis festins.

Dias depois deste acontecimento eram por sua vez agredidos os Araras por um troço de valentes Mundurucus, que ficaram senhores do campo. Muitos dos Araras morreram no combate e os outros acharam na fuga meio de evitar que servissem suas cabeças de troféus de guerra a seus encarniçados inimigos.
Agradados os Mundurucus da fisionomia de João Mendes, acolheram-no com muitas demonstrações de prazer e trataram logo de o pintar com os sinais característicos da sua tribo.
Soube João Mendes por tal modo captar as simpatias da tribo numerosa e guerreira, que foi por ela elevado ao grau de seu tuxaua ou chefe, e como tal dirigiu-a por muitos anos, levando-a à guerra contra outras tribos, sempre com feliz resultado.
Em 1825 foi à capital do Pará e ali se apresentou ao presidente José Felix Pereira de Burgos, que além dos presentes que lhe fez, nomeou-o capitão da tribo, título de que muito se orgulhava.
Depois da revolução de 1835, pretendeu João Mendes abandonar a vida selvagem, que a fatalidade lhe fizera adotar; não lhe foi possível, porém, porque os hábitos adquiridos durante mais de trinta anos, lhe contrariavam os desejos.
Retirou-se para o lago José-assú, no distrito de Villa Bela (hoje Parintins), onde faleceu em 1865.


NOTA: Texto extraído do livro “Lembranças e Curiosidades do Vale do Amazonas”, escrito por cônego Francisco Bernardino de Souza, 1873.

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