segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Sobre a Igreja de Nossa Senhora da Assunção de Vila Franca


Por padre Sidney Augusto Canto

Dias atrás, a pedido do meu amigo Fábio Barbosa, comecei a rever meu acervo (hoje muito mais rico em informações) sobre a antiga Igreja Matriz de Vila Franca. Desmitificando mitos, aqui está uma pequena contribuição para a atual construção que seria, na verdade, a terceira igreja, cuja construção foi iniciada em 1848.


Os primórdios da fé católica, em Vila Franca, têm início em janeiro de 1723, quando o missionário Jesuíta Padre Manoel Rebelo, (que desde 1698 trabalhava junto aos índios Tapajós, na Missão de Nossa Senhora da Conceição, hoje Santarém), resolveu subir o rio Arapiuns e aldear os índios desse rio em uma nova Missão denominada de Nossa Senhora da Assunção (ou da Glória, conforme alguns). As principais tribos aldeadas eram as dos Arapiuns e Comarus, não ficou esse padre muito tempo na missão (faleceu em 30 de abril de 1723, no Colégio dos Jesuítas, em Belém). Seu sucessor, o padre Felipe de Borja, foi quem edificou a primeira igreja da Missão, em taipa de mão e organizou os índios que já estavam se dispersando novamente. Infelizmente esse padre veio a falecer em 24 de novembro de 1731, sendo sepultado no interior da igreja que ele mesmo ajudara a construir. Mais tarde, veio o missionário mais famoso que a Missão conheceu, o Padre João Daniel, que depois de expulso do Brasil, escreveu o "Tesouro Descoberto no Máximo Rio das Amazonas".
Em 1758, o governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado, extingue a Missão de Nossa Senhora da Assunção e cria a Paróquia (ou Freguesia) de Vila Franca, mantendo a mesma padroeira, no dia 13 de março daquele ano.
Ao contrário do pensamento popular, pequena igreja dos Jesuítas ainda continuou a funcionar por muitos anos como sede da paróquia de Nossa Senhora da Assunção. Foi esta antiga capela da Missão que foi visitada pelo Bispo Dom Frei João de São José em 22 de dezembro de 1762, que assim escreveu: “Estava esta pobríssima e com toalhas rotas bem indignas, e sem pedras d’ara nos altares colaterais”. Pouco mais de 20 anos depois, outro Bispo do Pará, Dom Frei Caetano Brandão, ao visitar Vila Franca, em 16 de janeiro de 1789, assim descreve a antiga capela: “Igreja boa e asseada, ainda que falta de ornamentos: tudo se deve ao Diretor, sujeito de muita honra e probidade”. Em 1812, sabemos que a antiga igreja, ainda se mantinha, coberta de palha, contudo suas paredes apresentavam já sinais de ruína e veio a ruir de vez em 1848.
O povo de Vila Franca havia pedido ao Governo da Província a construção de uma nova Igreja. Em 1846, entretanto, o Governo Provincial decidiu mudar a sede paroquial da vila para o lugar Ecuipiranga, destinando para aquele lugar as verbas para construção de uma nova igreja, casa da câmara e prisão. Isso causou revolta na população de Vila Franca, que conseguiu reverter o processo e manteve na Vila a sede de sua freguesia.
No entanto, em 1848 o povo de Vila Franca tratou de começar a construir uma NOVA IGREJA. Os trabalhos correram muito lentamente. Em 1859, uma comissão foi até o presidente da Província pedir ajuda. Esta conseguiu reverter a situação criada pela lei de 1846. No entanto as obras da Igreja ficaram paradas em seus alicerces.
Segundo Ferreira Pena, em 1867, a Assembleia Provincial havia autorizado a despesa de 12:000$000 (doze contos de réis) para a conclusão da Igreja. Quando de sua visita à Vila Franca, em 1868, encontrou os alicerces da nova Matriz. Enquanto isso a Matriz funcionava em uma capela coberta de palha, mantida pelo pároco em decência. Esta nova capela "provisória", bem como o novo cemitério da Vila, foram obras construídas pelo padre Antônio do Espírito Santo da Fonseca, que muito contribuiu com o povo de Vila Franca.
Em 1880, por meio da lei provincial 1.008, de 27 de abril desse mesmo ano, Vila Franca teve novamente a sua sede paroquial transferida para o lugar Itacumini, antiga sede do Pesqueiro Real, que fazia parte do 2º Distrito da mesma Vila, com as mesmas características da transferência feita no ano de 1846.
Novamente o povo se revoltou contra o fato. E, para demonstrar interesse em continuar sendo sede da freguesia, novamente foi retomada as obras da reconstrução da Matriz, que até aquele ano ainda estava nos alicerces. Com muito esforço, e com as pequenas ajudas financeiras dadas pelo governo da Província, o povo de Vila Franca conseguiu concluir a “capela mor”. Contudo, em 1889, adveio o final do Império e as ajudas monetárias do Estado cessaram. E a construção da Igreja acabou ficando apenas em sua capela mor, ficando a nave central apenas nos alicerces. Mesmo assim, pouco tempo depois, com a ruína da antiga capela “provisória”, os objetos foram transferidos para o que hoje vemos como Igreja de Nossa Senhora da Assunção.
Apesar da simplicidade a capela mor foi transformada em Igreja, que apresentava os baldrames e paredes construídas em pedra, barro amarelo e cal com um reboco com pintura de cal sem emassamento, com duas sacristias laterais, cada uma com três janelas. Possuía um altar mor, construído em madeira, ornado por uma grande imagem, em madeira, de Nossa Senhora da Assunção. Esse altar não existe mais hoje.
Em 15 de fevereiro de 1905, ao visitar Vila Franca, Dom Frederico Costa, anotou a seguinte impressão:

O que é atualmente Vila Franca não dá ideia do que foi no passado. Hoje a população está dispersa pelo interior e pelos rios dos Arapiuns, onde se descobriram ricos seringais. A não ser no tempo das festas, há em Vila Franca apenas três ou quatro casas habitadas, com pouco mais de vinte moradores. Entretando a Igreja é boa e está bem tratada, o que demonstra a boa vontade da população.

Naquela época, ainda se podiam ver as fundações da antiga "Nave Central" e das "Torres" que nunca chegaram a ser construídas. A Igreja possuía dois sinos bons, colocados em um campanário de madeira.
Seu interior apresenta, ainda hoje, uma riqueza de imagens barrocas dos séculos XVIII e XIX. Elas se encontravam dispostas em dois altares laterais e num altar-mor, em madeira, que hoje não existe mais. Chama atenção, além da imagem da padroeira, Nossa Senhora da Assunção, a imagem do Cristo Morto, entalhada em peça única de itaúba, em tamanho natural e com feições indígenas, típicas das oficinas Jesuítas do Século XVIII. O Museu de História e Arte Sacra catalogou 14 bonitas imagens desse período na Igreja de Vila Franca, fazendo de seu acervo, um dos mais importantes do Interior do Pará.



2 comentários:

  1. Olá Padre Sidney meu nome é Aline e eu busco informações do meu tataravô que foi nomeado delegado literário da Paróquia de Vila Franca em 17 de Abril de 1875, o nome dele era Constante Silverio Pereira Piza, eu busco documentos dele, como certidão, a saber quem era seu pai, sua mãe, etc. Onde será que consigo esses documentos? Teria algo guardado na paróquia? Muito obrigada

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Estimada Aline, no momento não possuo informações sobre este seu antepassado. Nessa época a paróquia de Vila Franca pertencia à Arquidiocese de Belém, onde, possivelmente, você poderá encontrar maiores informações a respeito.

      Excluir