sábado, 29 de fevereiro de 2020

Sobre a Igreja Matriz de Monte Alegre (Parte 02)


Por Pe. Sidney Augusto Canto

No dia 14 de agosto de 1784, o Bispo do Pará, Dom Frei Caetano Brandão (vide ilustração abaixo), chega para fazer sua visita pastoral na paróquia de São Francisco de Assis, em Monte Alegre. No entanto, as febres que lhe atacam, o deixam prostrado por muitos dias. No entanto, dele temos o seguinte relato sobre a antiga matriz:

A Igreja é um bom edifício, com assaz espaço, tres altares aceados, muita luz, ornamento sufficiente: em fim tem a limpeza, e decência que convem aos objectos sagrados; o que se deve em grande parte ao zelo do Vigario, sujeito muito hábil e exemplar: toda ela esta cercada de huma varanda muito desabafada, e vistosa.


Em 1824, durante os eventos de revolta que aconteceram no interior da Província do Pará, por conta da adesão à Independência e ao Império do Brasil, Monte Alegre se manteve em guerra contra Santarém. No dia 20 de abril daquele ano, um ferrenho combate deixou muitos mortos das forças legais, vindas de Santarém. Os ossos dos mortos ficaram insepultos durante muito tempo, sendo recolhidos para serem sepultados na Matriz, conforme se expressa o Senado da Câmara de Monte Alegre que:

(...) determinou serem juntos todos os ossos que se achavam dispersos pelo campo e serem conduzidos para esta igreja (a matriz de são Francisco em Monte Alegre) no dia 2 de agosto foi convidado todo o Povo pelo seu Pároco que junto com o Senado e a Irmandade do Santíssimo Sacramento e São Benedito se dirigiram em solene procissão do meio do Campo conduzindo os ossos de todos quantos nesta Guerra Civil perderam a vida sepultando-se na Igreja aonde foram encomendados como manda o Ritual Romano e a mesma Igreja.

Após anos sem os devidos reparos, a antiga Matriz já não era mais capaz de se manter de pé. As constantes intempéries obrigaram os Monte Alegrenses a se desfazerem da antiga Igreja “avarandada” para construírem uma nova Matriz para o culto sagrado. O que de fato aconteceu, no mesmo lugar onde estava a antiga e aproveitando-se muito do material da mesma.

Os trabalhos inciaram, de fato, em 1832. Antônio Ladislau Monteiro Baena, em sua “Corografia” do ano de 1833, já falava dos trabalhos de sua reconstrução nestes termos: A matriz é dedicada a São Francisco de Assis, ela foi um bom edifício, limpo e decente, atualmente trata-se da sua reedificação. Há mais duas pequenas igrejas, das quais uma serve de matriz.

No entanto, com o advento da Cabanagem, as obras foram interrompidas, ficando apenas os alicerces e uma parte muito pequena das paredes levantadas em pedra e cal, dando a aparência de uma total ruína. Enquanto isso, os atos litúrgicos eram realizados em uma pequena capela denominada de “Senhor dos Passos”.

Como a mesma era pequena (conforme vimos acima, no relato de Baena), a capela em si foi transformada em “capela mor”, construindo-se um alpendre, coberto de palha, na frente da referida capela, para servir de “nave”, onde o povo pudesse ficar para acompanhar as cerimônias litúrgicas. É importante salientar que, segundo o historiador João Santos, a referida capela fora construída em fins do século XVIII, por um devoto de nome Fernando Ribeiro Pinto. A capela era regida pela Irmandade do Senhor Jesus dos Passos, da qual seu construtor possivelmente era membro benquisto.

Assim continuou por muitos anos. Essa situação de penúria, pode ser constatada por dois relatos de viajantes ilustres que passaram por Monte Alegre. Vejamos o primeiro desses relatos, feito pelo cientista Alfred Russel Wallace, que assim descreve a situação em 1849:

A própria vila forma um espaçoso quadrado no qual o que há de mais importante é o arcabouço de uma grande igreja, de pedras escuras, que foi começada há cerca de vinte anos, quando o lugar era mais populoso e próspero, antes das revoluções que causaram tantos danos à província, havendo pouca probabilidade, por isso mesmo, de ser ela algum dia acabada. A atual igreja é um edifício baixo, coberto de folhas de palmeiras, como se fosse um celeiro, e, como a maior parte das casas, é, igualmente, de aspecto muito pobre.

Outro renomado cientista, Luís Agassiz, que passou por Monte Alegre no ano de 1865, fez a seguinte descrição:

Monte Alegre é um dos mais antigos estabelecimentos da Amazônia; mas devido a todas essas circunstâncias desfavoráveis, a sua população diminui em vez de aumentar. No meio da praça pública estão as quatro paredes duma catedral começada há quarenta anos e até hoje inacabada. As vacas pastam o capim nas partes baixas do edifício que se poderia tomar por um triste monumento destinado a atestar a miséria dessa localidade.

Era essa visão de abandono que podia se ver na Monte Alegre daqueles tempos, muito diferente daquele povo unido, devoto, que muito agradou ao Bispo Brandão, quando de duas visitas efetuadas (1784 e 1788). No entanto, ao contrário da previsão de Wallace, a cidade de Monte Alegre veria realizado o seu sonho de celebrar e festejar os sagrados mistérios da fé católica em sua nova Igreja Matriz.


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