quinta-feira, 18 de junho de 2020

Os “Banhos de Cheiro” em Santarém – 1927


São João, neste ano, deitou as manguinhas de fora.
Dos recônditos labirintos da Aldeia, às remansosas plagas prainhenses, formigavam as fogueiras numa alacridade única, a festejar o santo da pataqueira, da manjerona e da priprioca.
A “bicharada”, na ânsia de escapar às garras do Malheiros, caiu na farra, ao som dos pinhos e dos zambubas.
O “cisne”, o “japiim”, a “pipira”, a “borboleta”, a “preguiça”, o “boi”, farandularam até a madrugada.

À meia noite, à hora dos mistérios e dos encantamentos, já era intenso o curiosíssimo o movimento de banhistas que, procurando as “frescas águas do Tapajós”, iam deixar aos retardatários a caipora, o azar, a urucubaca, de envolta com o perfume acre e delicioso das ervas mandingueiras.
Ao morrente relampejo das últimas brasas, pares ingênuos cercavam o rescaldo fumegante dos sacais, na cerimônia característica dos compadrios e parentescos de fogueira, a encobrir, bastas vezes, as primícias de afeição mais terna que o futuro revelará.
De vez em vez, uma cuia contendo complicada manipulação de ervas cheirosas e raízes misteriosas, era trazida por alguém e passada, em três rondas, sobre o cinzeiro escaldante. Era a loção para o banho.
E Santarém toda, a alma popular, radiosa, vibrava numa alegria imensa, cristalina, de risos, cantos e músicas, na festiva noite do Precursor.
Já no recesso da minha soledade, ouvia eu a algazarra que, rua acima, rua abaixo, faziam as banhistas ao passarem, toalhas ao ombro, rescendendo priprioca e trevo.
Foi nesse momento – duas horas da manhã – que uma voz infantil fez-se ouvir, por entre as exclamações e risadas dos que passavam:
– Ta hi! Agora eu quero ver quem é que leva a cuia de urina da mamãe!...
É que essa “loção” também é usada como excelente antiurucubacante...
SAULO TAPAJONIO

NOTA: Texto extraído do jornal “A Cidade” de 25 de junho de 1927.

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