quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Sobre a emancipação da Província do Baixo Amazonas – Conferência de 28 de dezembro de 1884

O nosso ilustrado e jovem comprovinciano dr. Américo Campos iniciou na cidade de Santarém uma série de conferências, que tem por fim despertar o espírito público a favor da criação da Província do Baixo Amazonas.
Na primeira dessas conferências, que teve lugar à 28 do passado, recordou o ilustre médico os serviços prestados à causa do Baixo Amazonas pelos deputados exmos. Srs. João Victor e dr. Fulgêncio Simões, nosso chefe de redação, conseguindo geral aplauso e os mais significativos cumprimentos ao terminar sua importante alocução.

Agradecendo ao talentoso dr. Américo as palavras honrosas com que expos os serviços prestados à causa da descentralização desta região pelo nosso chefe dr. Fulgêncio Simões, passamos para as nossas colunas a notícia que da conferência deu o nosso colega Baixo Amazonas.
CONFERÊNCIA: No domingo (28 do passado) teve lugar no Paço da Câmara Municipal de Santarém, ás 11h da manhã, a conferência que fez o nosso talentoso conterrâneo dr. Américo Witruvio Gonçalves Campos, colaborador desta folha.
A elite de nossa sociedade ali concorreu para ouvir o jovem orador, que durante uma hora prendeu a atenção do auditório, tratando com entusiasmo da maior aspiração da população desta região = a criação de uma Província com o nome de – Baixo Amazonas.
Antes de começar a conferência, o nosso virtuoso vigário – arcediago dr. José Gregório Coelho tomando a palavra expos ao auditório o motivo da reunião apelando para o patriotismo do povo santareno para que, desprezando ressentimentos particulares, divergências de crenças políticas, se una em um só pensamento, abrace uma só ambição para assim conseguir o desejo de todos que é o progresso moral e material desta vasta e rica região. Terminou declarando que na série de conferências que se pretende estabelecer nesta cidade, ele reservará para si a parte literária, moral e religiosa no intuito de por sua vez concorrer para o engrandecimento do Baixo Amazonas.
O dr. Américo Campos, ocupando logo o lugar à direita do dr. arcediago começou o seu discurso em estilo insinuante fazendo um bonito exordio que desde logo captou-lhe as simpatias do auditório, pois que, à modéstia das frases realçava a figura simpática do laureado jovem santareno que, a uma causa tão justa oferece a dedicação, o entusiasmo e a energia da mocidade.
Na exposição do assunto conservou sempre o orador um estilo singelo, mas os seus elevados pensamentos, a cadência da frase e a doce inflexão da voz produziam cada vez mais agradáveis impressões de modo que, quando lembrou os serviços prestados pelo “Baixo Amazonas”, desde 1872, e pelos deputados João Victor e dr. Fulgêncio Simões em prol da causa que ele pretende advogar, todo o auditório estava identificado com o orador e com ele experimentava o mesmo entusiasmo.
O religioso silêncio com que foi escutado durante uma hora bem demonstrou quanto é nobre a missão daquele que faz da tribuna uma alavanca de progresso, uma arma de combate para a conquista do engrandecimento da pátria.
Nesta ocasião lembrou o orador a solicitude e o interesse com que o ilustrado representante da província, dr. Fulgêncio Simões, ilustre filho da cidade de Alenquer, tanto tem trabalhado pela prosperidade deste 6º distrito, arcando contra a hydra da centralização que tudo avassala, contra a ruinosa tendência da capital, de amesquinhar as localidades do interior, sugando-lhes a seiva.
No seu discurso declarou o orador que propõe-se com as duas armas de civilização – tribuna e imprensa – empenhar luta séria e constante para a criação da nova Província; e para triunfar só espera que todos os habitantes desta região, firmes e unidos com ele, trabalhem por este desideratum.
Concluiu dizendo que vai dar começo a uma série de artigos que serão publicados no periódico “Baixo Amazonas” e em outro jornal da capital, e que brevemente será redigida a mensagem em que se tem de pedir ao Governo Imperial e ao Parlamento a criação da “Província do Baixo Amazonas”.
O orador foi cumprimentado por quase todos que tiveram a satisfação de ouvi-lo.
Nós, por sua vez, o felicitamos e a seu digno pai, o nosso amigo, sr. João Victor Gonçalves Campos”.


NOTA: Texto publicado no “Gazeta de Alenquer” no dia 20 de janeiro de 1885.

Um comentário:

  1. Esse sentimento é bem anterior a esta manifestação... É provável que remanesça a 1770!!!

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